Sintomas

Meu Filho é Hiperativo?

terça-feira, 23 fevereiro , 2016

Certamente, você conhece alguma criança que foi diagnosticada como desatenta e hiperativa. Algumas famílias percebem em casa este modo de funcionamento da criança ou recebem da escola a informação de que algo não vai bem com ela no que diz respeito a sua aprendizagem ou seu comportamento. Muitos pais se assustam e saem em busca de um diagnóstico com o objetivo de promover a “cura” – com o desejo de que os sintomas logo desapareçam.

meu filho e hiperativo

Penso, no entanto, que é preciso perceber e refletir que a criança tem um corpo que fala. Essas dificuldades escolares que se apresentam sob a forma de desatenção e hiperatividade precisam ser escutadas pelos professores e pela família como algo que só está podendo ser expresso através do corpo.

Não se deve reprimir ou calar a criança quando o único recurso que ela tem para falar de algo que a incomoda é o seu sintoma. Ao contrário, é preciso reconhecer os sinais e escutá-los a fim de poder traduzir o que, a princípio, se apresenta intraduzível na relação da criança com a aprendizagem.

Não é tarefa fácil e nem simples! Mas é preciso uma dose de compreensão para que, diante da situação que ora se descortina como preocupante e, muitas vezes, desestruturante, seja possível promover um espaço de saúde. Não podemos esquecer que o sintoma não é de todo mal, pois só a partir dele temos condições de investigar e buscar ajuda.

Deste modo, penso que calar a criança que apresenta desatenção e hiperatividade, dando a ela algo que a tire do sintoma, como o medicamento, é não deixar que a causa do problema apareça. É como a febre, por exemplo: por si só não é uma doença, mas quando presente sinaliza que algo está acontecendo naquele corpo. A doença só poderá ser tratada no momento em que o sintoma surgir e nos permitir investigar. Se dermos remédio para febre a uma criança ela ficará bem, animada, mas a causa ainda estará lá. Não se pode trabalhar o sintoma como se ele próprio fosse a “doença”.

Podemos pensar que o corpo que fala através da desatenção e da hiperatividade está sinalizando algo que é reprimido, mas que, ainda assim, precisa sair de alguma forma. É como uma panela de pressão que, para não explodir o conteúdo, libera fumaça, avisando que há uma verdadeira ebulição interna em andamento – embora não seja vista, ela é percebida.

Diversas podem ser as causas desses sintomas. A impossibilidade de aprender pode denunciar os modelos que a criança tem de educação, seja em relação à instituição-família ou à instituição-escola. É preciso entender que estas situações acontecem de forma inconsciente e que, portanto, a criança não tem controle sobre elas. Evite os castigos, as críticas e, no lugar disso, escute, abra espaço para que a criança fale sobre o que acontece com ela e com a escola. Não faça uma investigação com muitas perguntas, crie situações que promovam diálogos espontâneos. Lembre-se: dialogar não é colocar a criança sentada à sua frente e bombardeá-la com perguntas ou fazer um sermão esperando que as palavras ditas por você transformem-se em ações para ela como num passe de mágica. Diálogo requer a capacidade tanto de falar quanto de ouvir. Neste caso, considero a segunda ainda mais importante.

Gostaria de destacar uma questão que diversas vezes aparece implícita nestes sintomas: o desejo de não crescer. A criança que se mostra desatenta e hiperativa pode estar falando da dificuldade de crescer. Não podemos esquecer que o aprendizado é o caminho do desenvolvimento. Quanto mais ela aprende, mais evolui e, desta forma, mais se distancia da condição de criança e de dependente.

Nesta situação, a criança pode estar tentando atender não apenas o seu desejo, mas também
o desejo dos seus pais. É preciso refletir: estou permitindo, de fato, que o meu filho cresça? Para onde vai o meu desejo em relação ao meu filho? Qual o sentido dele na família?

A criança, ao ingressar na escola, aprende uma série de conteúdos: Português, Matemática, História, Ciências… Esta aprendizagem é visível, tem um registro, uma avaliação. Mas, para além da aprendizagem formal, a criança aprende a ver o mundo por uma lente ampliada, que revela muito mais e oferece muito mais condições e oportunidades do que a primeira lente com a qual tem contato, a lente oferecida pela família. A criança está a caminho da autonomia e, aqui, cabe mais uma pergunta reflexiva: as mães sabem exatamente o sentido da palavra autonomia no que diz respeito aos filhos?

Autonomia é o antônimo de dependência. E, quando se pensa em autonomia dos filhos, as mães não estão excluídas. Quanto mais a criança cresce, quanto mais consegue resolver problemas, quanto mais aumenta o seu número de relações, mais a dependência inicial que existe entre mãe e filho vai perdendo sentido e a mãe passa a ocupar outro lugar na vida da criança. Lembre-se: dependência não é sinônimo de amor. O amor na relação entre pais e filhos não estará ameaçado simplesmente pelo fato de a criança crescer e se tornar independente.

Outro aspecto importante é que a criança só olhará o mundo e será capaz de vislumbrá-lo ao observar você fazer o mesmo. Quando a mãe desvia o seu olhar até então direcionado para o bebê, permitindo-se olhar para o que está a sua volta, inconscientemente convida o bebê a fazer o mesmo. Portanto, proponho um desafio: olhe para você, para a sua vida e procure anotar o que mais faz sentido além do seu filho. Quais são seus projetos de vida?

Penso que muitas crianças que se apresentam desatentas e hiperativas nas salas de aula estão impedidas de ampliar o seu mundo, de conhecer algumas das verdades que este mundo oferece e, desta forma, crescer.

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