Sintomas

Internet: Uso, excesso ou compulsão?

segunda-feira, 25 maio , 2015

Quando o uso torna-se excessivo a ponto de criar complicações ou alterações no modo de existir do indivíduo podemos pensar em neurose digital.

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As transformações na sociedade nos levam a lugares antes impensáveis. Impulsionadas por todas as mudanças ocorridas nos últimos anos em função das revoluções, descobertas e invenções na área tecnológica, os objetos de desejos referentes a esse “novo mundo”, podem ser analisados como próteses humanas.

Os computadores mais do que ferramentas apresentam-se como porta de entrada para um universo desconhecido, ou melhor, janelas que se abrem (várias ao mesmo tempo) para mundos paralelos. Aqui caberia uma pergunta: O que é real e o que é virtual depois desta revolução tecnológica?

É certo que o celular, a internet, os jogos vem transformando o modo de existir de crianças, jovens e adultos. Não apenas pela forma como usam os aparelhos ou pelo tempo que estão nos sites de relacionamentos, mas porque toda a família está munida dessas próteses mudando assim a forma como eram organizadas.

As novas tecnologias que levam os indivíduos a habitarem mundos paralelos provocam uma interferência direta na forma como o homem da contemporaneidade vem construindo sua identidade. A forma como se apresentam no mundo real está atrelada as experiências vividas também nestes outros mundos.

O espaço cibernético, o mundo virtual que proporciona uma velocidade de comunicação diferente do mundo real nos remete a um lugar “vivo de verdade”: Neste mundo se faz amigos, se desfaz deles, se ganha dinheiro, se namora, casa-se… Se antes a criança se constituía psiquicamente a partir das identificações com os pais, parentes e amigos próximos, hoje elas se constituem também a partir das ideais e ideias experimentadas sem limites e sem controle dentro das telas.

É preciso analisar os fatores de riscos, o que aponta para uma vida pouco expansiva no mundo real e onde estariam os prejuízos!

Sabemos que há risco de toda a ordem: Físico, orgânico, emocional e relacional. Deter-me-ei aos aspectos psicológicos que poderiam afetar o desenvolvimento psíquico bem como as relações sociais dos indivíduos.

Entendemos todo esse universo paralelo como novo palco onde crianças, jovens e adultos podem experimentar, ao longo de 24 horas, várias formas de apaziguar o sofrimento humano: através de um avatar, de um nickname, de uma senha podem ser quem eles desejam! Ao mesmo tempo em que essa experiência pode levar o indivíduo a reelaborar suas dificuldades afetivas, emocionais ou relacionais do mundo real pode também aprisioná-lo nesse modo de funcionamento.

É preciso considerar que todos nós somos dependentes porque precisamos de comunicação. No entanto existem vários graus de dependência! Quando o uso torna-se excessivo a ponto de criar complicações ou alterações no modo de existir do indivíduo podemos pensar em neurose digital. Nesse ponto já não se faz mais nada com qualidade a não ser o que está relacionado à tecnologia, sendo assim, as perdas dos laços afetivos, baixa produtividade profissional e escolar são algumas das consequências.

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Uma das hipóteses levantadas é que quanto maior for à insatisfação do indivíduo mais facilmente ele é capturado por recursos que oferecem sensações de prazer e satisfação a curto prazo… Essa mesma sensação de prazer que o leva a sublimar ou recalcar os problemas da vida real, o leva a repetir, repetir e repetir… E a esse processo daremos o nome de compulsão.

Nesse sentido se faz necessário compreender o que causa esse desprazer, isto é, a origem dessa insatisfação afim de que se possa dar novo sentido a sua história… Sempre em busca de qualidade de vida.

Outro aspecto que leva o indivíduo a compulsão são os apelos de consumo estimulados pelos sites, os fenômenos de alegria e sucesso “vendidos” nas redes sociais e os grupos de “autoajuda” que muitas vezes oferecem riscos a vida por se tratar de grupos que se encontram para compartilhar suas dificuldades e experiências sádicas, masoquistas, suicidas…

Escuto de muitos pais no consultório que o fato de ter o filho em casa, no quarto e divertindo-se na internet seria menos arriscado do que deixá-lo na rua, no clube ou na casa de amigos. O que é uma ilusão, pois até alguns anos podíamos ensinar os nossos filhos sobre os riscos da vida, por exemplo:, “preste atenção ao atravessar a rua”, “não aceite bebidas de estranho”, não fale com pessoas desconhecidas, “ não ande por ruas desertas”, “ não abra a porta para ninguém”… Há uma ilusão de que se está protegido por trás da tela. Essa sensação de segurança e de pouca exposição no mundo virtual pode impor uma zona de conforto que é preocupante e precisa ser discutida nas famílias, nas escolas, na mídia…

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Outro movimento que assistimos é o de crianças e adultos com pouca habilidade social que acabam usando os sites de relacionamentos para minimizar as sensações de insegurança, medo e angústia nas relações interpessoais! É possível assistir crianças e jovens cada vez mais ensimesmados e sem recursos para lidar com pessoas.

Cabe ainda uma discussão sobre a família: Os pais são modelos e acabam produzindo um modo de funcionamento no lar quando “ensinam” que estar corporalmente presente é estar presente de fato. Na verdade o que temos assistido são corpos acoplados aos seus aparelhos envoltos em experiências particulares: O pai no computador, a mãe no Whatsapp, o filho jogando on-line… Escuto uma cobrança por parte das crianças e jovens não só porque os pais não estão presentes nas suas vidas na medida que ampliam a jornada de trabalho através dos computares e aparelhos telefônicos mas também pelo fato de criticá-los quanto ao uso da tecnologia sem antes mesmo fazer uma auto-análise do seu comportamento.

Essa experiência não tem acontecido só na família, mas também na mesa de bar entre amigos, entre casais nos restaurantes, com crianças nas festas infantis sentadas à mesa jogando no Ipad… É preciso pensar porque tem sido mais interessante passar mais tempo e dando mais atenção aos acontecimentos e aos encontros sem corpos! Por que estamos nos desconectando das pessoas que nos são próximas? Seria uma consequência dessa modernidade liquida?

Se é inquestionável o que tecnologia com seus avanços faz pelo homem, o que se coloca em discussão é o que a tecnologia tem feito com o homem.

 

 

Imagens ilustrativas tiradas de cenas do filme “Deuses e Titãs”, curta-metragem de Clodoaldo Lino, que aborda o tema da adicção digital.

 

 

 

 

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