Sexualidade

Entrevista: Sobre como os pais podem lidar com filhos LGBT

quinta-feira, 21 setembro , 2017

P – Recentemente no interior de São Paulo, uma mãe matou o filho de 17 anos em decorrência de um conflito por conta da orientação homossexual do jovem. O crime está sendo considerado pelo Ministério Público como um assassinato por homofobia. Como terapeuta, o que a senhora poderia falar sobre este caso?

Penso que o caso de Itaberli Lozano apresenta outros aspectos que precisam ser considerados. Ainda que consideremos que a homossexualidade tenha sido o motivo para o assassinato deste jovem, o ato de matar alguém de forma tão fria, sobretudo quando se trata do próprio filho, deve vir acompanhada de comprometimentos psicológicos importantes.

 

P – Como os pais podem reagir ao desconfiar sobre a orientação LGBT do filho?

Acolhê-lo! Sobretudo quando esse jovem vive em meio à angustia de ter que sobreviver aos conflitos experimentados nos grupos sociais. Ampará-lo! Fundamentalmente quando esse mesmo jovem vive o horror de não poder expressar quem é. Ao usar uma máscara social que lhe veste perfeitamente aos olhos de quem o enxerga superficialmente, adoece psiquicamente, pois internamente não se reconhece nesse espelho social.

 

P – O que os pais podem responder quando um filho ou filha se declara LGBT?

Talvez a resposta deva vir formatada como uma pergunta: Você está feliz? Tem algo que eu possa fazer por você?

Essa liberdade de expressão é muito recente, bem como a compreensão de que a homossexualidade não é uma doença ainda é muito recente. Pela Organização Mundial da Saúde data de 17 de maio de 1990.

Estamos em 2017 e ainda vivemos diversos tabus. As questões relacionadas à sexualidade ainda nos mostra o quanto é difícil lidar com diversos temas tais como corpo, desejo sexualidade. É certo que muitos pais ainda se preocupam com os filhos homossexuais, pois também sofrem com os preconceitos que acompanham a homossexualidade. Há ainda o medo e as fantasias referentes ao julgamento do tipo: “não soube educar o meu filho”, “errei como pai”…

É preciso olhar para o filho que compartilha a sua sexualidade com os pais como um filho que divide a sua intimidade e tem desejo de participar a família a sua história. Penso que mais importante do que responder algo é se colocar disponível para escutar e acolher o que está sendo comunicado. Penso que o desejo maior de todos os pais que constroem de forma saudável as suas funções de pais e mãe é que os seus filhos estejam felizes nas suas escolhas.

 

P – O que os pais podem fazer caso sua religião conflite com a orientação LGBT do filho?

A religião se engana quando trata da sexualidade humana como algo que diz respeito à natureza. A busca pelo prazer escapa a qualquer protocolo, destitui qualquer modelo de normalização e desta forma, independentemente da religião, é preciso que todos incluam suas experiências e o que se vive como algo a ser explorado. Sendo assim não é possível ficarmos aprisionados e apenas “tentando” incorporar o que se aprende, passivamente, sem reflexão, isto é, sem incluir o nosso saber mais íntimo sobre os fatos e acontecimentos objetivando assim reconstruir nossas próprias ideias.

 

P – É possível avaliar quanto tempo leva até que os pais consigam processar a informação e passem a aceitar e conviver normalmente com a sexualidade do filho?

Não é possível falar de tempo quando tratamos da subjetividade humana. Também estaríamos sendo preconceituosos ou ao menos partindo do princípio que todos os pais precisariam de tempo… Muitos pais já sabem muito antes de serem comunicados.

Eu arriscaria dizer que todos os pais sabem… mas muitos não conseguem assumir ou aceitar o seu próprio saber sobre . Os pais precisam cuidar para que não sejam perversos quando na tentativa de negar ou reprimir o saber sobre a homossexualidade dos filhos. Lembro-me de um paciente jovem homossexual que fala da sua angustia quando cada vez que aparecia na televisão algo sobre o tema a sua mãe fazia críticas negativas e ofensivas.

 

P – Se os pais perguntarem sobre a orientação LGBT e o filho se esquivar, o que fazer? Existe uma forma melhor de a mãe abordar o tema caso perceba tendências LGBT no filho?

Sexualidade é uma questão particular e sendo assim penso que os pais devem colocar-se sempre próximos e disponíveis para orientar, explicar e, sobretudo, escutar caso os filhos queiram compartilhar algo a respeito. Importante: Independente da orientação sexual.

 

P – E se o filho for uma criança, o que fazer?

É preciso acompanhar o desenvolvimento da criança e perceber se há sofrimento da forma como vem se constituindo.

O mais difícil é quando a questão ultrapassa o desejo por alguém do mesmo sexo e a menina ou o menino apresentam trejeitos femininos no caso do menino e masculinos no casa da menina. Essas crianças/jovens muitas vezes sofrem bullying na escola ou onde moram, o que, muitas vezes, os levam às doenças psíquicas tais como: crise de angústia, depressão…

Muitos jovens tentam suicídio por não suportar a dor da não aceitação dos seus pais, familiares e colegas. Os pais precisam estar atentos e acolher e amparar seus filhos da forma como eles se apresentam.

 

P – Como o filho pode contar que não é heterossexual para os pais?

Um filho deve contar de forma natural na hora que considerar importante. Talvez nunca contem quando percebem que ao contar podem perder o amor dos pais. Talvez nem precisem contar quando o amor dos pais leva a criança a perceber que eles já sabem sobre a sua orientação sexual e nem por isso houve mudança na relação.

Geralmente é muito difícil tanto para a menina quanto para o menino quando começa a pressão social do tipo: “você está namorando fulaninho?”; “acho que você gosta da fulaninha…”.

Importante: É um incomodo para os filhos heterossexuais ou homossexuais. A diferença é que os filhos homossexuais sofrem pela certeza de que não correspondem e jamais corresponderão aos desejos dos seus pais.

 

P – Se os pais reagirem mal, o que o filho pode fazer?

Não há muito o que fazer pois não se pode controlar o pensamento e o desejo que é do outro. Muitas vezes tomados pela surpresa os pais podem reagir negativamente e após um tempo de elaboração é possível que encontrem um lugar para as suas dores e frustrações. Aquele que comunica (seja lá o que for comunicado) tem que dar um desconto para quem recebe a comunicação… Por mais que os pais saibam é diferente quando o filho resolve decidir que é hora de desconstruir o desmentido ou romper com o silêncio.

 

P – É possível listar as principais razões que fazem muitos pais reagirem mal?

Sexualidade é sempre um tema polêmico. O ser humano reage mal a tudo o que foge ao esperado. Os pais na maioria das vezes criam expectativas sobre o desenvolvimento e crescimento dos filhos (consciente e inconscientemente): O que vai ser quando crescer? Como vai ser? Que esporte irá praticar? Que línguas irá estudar? Assim por diante. Com relação a sexualidade, é sempre esperado pelos pais que o gênero coincida com o desejo.

 

 

Assuntos Psicanálise, Sexualidade

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