Infância

Brincadeira: mais do que diversão

quinta-feira, 2 maio , 2013 postado por Niskama Prem

Quando os pais escolhem um brinquedo ou ensinam uma brincadeira para os filhos, talvez não tenham ideia da importância que há no ato de brincar. As brincadeiras solitárias, os jogos em grupo, as brincadeiras com regras, as brincadeiras inventadas… Todas as formas de brincadeira ajudam a criança a organizar-se.

Ao observar a criança brincando é possível compreender um pouco o que ela pensa sobre alguns aspectos da vida e como interpreta situações do dia-a-dia, por exemplo: ao brincar de “casinha”, pode representar suas impressões sobre os relacionamentos familiares; quando brinca de “escolinha” e coloca as bonecas no lugar dos alunos, o que pode estar em jogo é a forma como compreende a postura e atuação da professora. Também é possível perceber a sua relação com os amigos, isto é, se é submissa ou autoritária, egoísta ou altruísta… Nas brincadeiras que cria, a criança é capaz de representar vários personagens, e em cada um deles o que está em jogo é o que a afeta diretamente.
Ao brincar e reproduzir, por exemplo, o relacionamento entre marido e mulher, entre aluno e professor e entre adultos e crianças, expressa sentimentos como alegria, tristeza, medo de separação, medo dos professores autoritários, conflitos com os amigos… Expressa as suas inseguranças ou certezas momentâneas. Pelas brincadeiras que escolhe e pelo modo de brincar, a criança pode, ainda, elaborar suas angústias, testar até onde vai a sua capacidade de compreensão, assim como buscar desafios e respostas para resolver os seus enigmas e dar vazão as suas fantasias.
O brincar é algo tão sério e tão importante no processo do desenvolvimento cognitivo, emocional e relacional da criança que gostaria de tratá-lo em partes. A brincadeira deve ser compreendida e usada como recurso pedagógico/educacional ao longo de toda a vida escolar da criança. É através da brincadeira organizada que ela irá construir uma série de aprendizagens que serão utilizadas no decorrer da sua vida, principalmente quando for adulta e estiver inserida no mercado de trabalho. A maioria das atividades profissionais exige do indivíduo competências para além do seu saber técnico, entre elas, criatividade e sociabilidade. Como instrumento pedagógico, as brincadeiras oferecem à criança recursos importantes para desenvolver estas e outras competências.
Esse processo acontece desde que a criança é bem pequena! Ainda na Educação Infantil aprenderá muito com as brincadeiras aparentemente inocentes desenvolvidas pelos professores. Muitas vezes os pais desconsideram brincadeiras simples, como as que são feitas com massinha de modelar. No entanto, atividades que a princípio parecem sem objetivo enriquecem a criança quando orientadas por um educador que, de fato, reconhece a importância dos recursos existentes por trás do objeto, como a massa de modelar.
A criança que brinca desenvolve a sua capacidade motora, aprende conteúdos de acordo com a sua possibilidade de compreensão e competência cognitiva, desenvolve sua criatividade, aprende a dividir e trabalhar em grupo, a considerar o ponto de vista de cada um envolvido na brincadeira, a ouvir e também a discernir a hora de apresentar suas ideias. O brincar que tem este cunho pedagógico/educacional permite à criança aprender a levantar hipóteses, elaborar o pensamento diante de algum problema, buscar várias alternativas diante de uma situação e chegar a um consenso quando a brincadeira envolve outras crianças. A criança que brinca orientada aprende a jogar com regras ao mesmo tempo em que aprende a questioná-las. Ainda que não concorde com algumas das regras, se escolheu participar da brincadeira, precisará ceder.
O educador pode utilizar o jogo e suas regras para levar o grupo, e cada elemento que o compõe, a pensar os valores implícitos no jogo; pensar, ainda, a função de cada membro da equipe para que esta alcance o objetivo. Outro trabalho interessante é escutar os que não concordam com algumas das regras e o porquê de não concordarem. Na medida em que são capazes de pensar sobre o jogo, poderão, também, pensar sobre os seus valores individuais. Os educadores, ao estimular a criatividade, poderão propor uma releitura das regras. Para levar à criança a reflexão de que as regras são organizadoras porque oferecem as informações necessárias para se chegar a um objetivo, uma boa atividade é oferecer ao grupo um jogo sem regras, em que cada um fará como achar melhor. A criança, ao se deparar com as dificuldades de jogar sem uma regra única e limites claros e definidos, percebe a necessidade de haver normas e leis quando se vive em sociedade. Os pais também podem usar esse recurso para ensinar os filhos. Penso que um jogo pode valer mais do que mil palavras quando se deseja fazer a criança compreender algumas situações da vida.
No entanto, quando se brinca ou se joga com crianças é preciso considerar o seu tempo. Crianças pequenas, por exemplo, prendem-se por pouco tempo a uma mesma atividade. Por mais legal e interessante que tenham achado o jogo, logo saem em busca de novidades. Por outro lado, crianças maiores e adolescentes costumam insistir no mesmo jogo ou atividade por um longo tempo. Cada uma das fases tem o seu interesse. Crianças pequenas estão descobrindo o mundo, as cores, as texturas, as imagens. Por isso, a caixa vermelha do jogo pode ser tão ou mais encantadora do que o próprio jogo. Crianças mais velhas e adolescentes já estão em busca de desafios e superações. Adoram os jogos com desafios, jogos onde são capazes de controlar a vida e a morte, pois assim podem dar asas a sua onipotência.
A criança precisa ser respeitada quanto ao seu interesse. Cabe aos pais, professores e recreadores oferecerem opções para elas. Nem sempre o jogo de que o pai mais gostou na infância será o jogo de interesse do filho. Nem sempre a brincadeira que a professora considera ideal para estimular a aprendizagem sobre animais domésticos, por exemplo, será, de fato, o melhor recurso de aprendizagem para todos os alunos.
As brincadeiras com fantoches são um bom exemplo: o medo sentido pela criança que não consegue compreender que ali há apenas pedaços de pano encarnados em personagens que se movem pelas mãos da professora pode paralisá-la. Neste caso, não houve aprendizagem e a professora, com aquela criança, não atingiu o seu objetivo. É preciso ficar atento, pois a recusa em realizar uma determinada atividade pode estar denunciando que há algo que a criança ainda não consegue dar conta ou que existe alguma dificuldade para além da dinâmica do jogo ou da brincadeira. Por isso, é preciso cuidar para não rotular a criança como um aluno que não atende a solicitação da professora, que é medroso… Se este comportamento acontece com frequência deve ser investigado.

 

Os pais e as escolas que oferecem brincadeiras como recurso para as crianças pequenas e as permitem transformar essas brincadeiras tomando para si a experiência do brincar consideram a criança que existe em cada aluno.

 

Crianças brincando na praia de castelo de areia

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