Educação

Quando as escolhas acontecem?

quinta-feira, 2 maio , 2013

A criança irá fazer sua escolha profissional a partir das suas identificações e das experiências que a vida lhe permite realizar. Os pais têm um papel fundamental neste processo, pois, como acompanham a criança ao longo destes anos, exercem, natural e invariavelmente, influência sobre ela.

A questão que se coloca é se esta influência é positiva, acompanhando a criança neste processo, escutando-a e promovendo espaço para informação, incentivando-a a valorizar suas descobertas — ou negativa, direcionando-a, fazendo com que venha a realizar algo que pensa ser o melhor para ela. Portanto, fique atento!
Uma cena chocou o mundo em abril de 2007: um pai agrediu a filha logo após uma competição no Mundial de Esportes Aquáticos em Melbourne, Austrália. O fato ocorrido com a nadadora Kateryna Zubkova e seu pai/técnico Mikhail Zubkova nos leva a refletir sobre uma questão que perpassa a escolha profissional do jovem: a influência familiar. E quando esta influência familiar se inicia? Só quando o filho chega à adolescência?A resposta é não.
Não é na adolescência, de fato, mas ao longo destes anos que a antecedem, quando a criança vai construindo sua identidade, nesta relação com seus pais ou substitutos. A criança irá fazer sua escolha profissional a partir das suas identificações e das experiências que a vida lhe permite realizar. Os pais têm um papel fundamental neste processo, pois, como acompanham a criança ao longo destes anos, exercem, natural e invariavelmente, influência sobre ela. A questão que se coloca é se esta influência é positiva, acompanhando a criança neste processo, escutando-a e promovendo espaço para informação, incentivando-a a valorizar suas descobertas — ou negativa, direcionando-a, fazendo com que venha a realizar algo que pensa ser o melhor para ela. Portanto, fique atento!
Com frequência, a família tende a achar que estará ajudando neste processo ao encaminhar o jovem para as profissões que julga serem as melhores. Considera, por exemplo, que o melhor para o jovem é seguir a profissão de um dos familiares; que ele deve fazer algo que acreditam ser a profissão do futuro ou, ainda, uma atividade que pode oferecer boa remuneração. Contudo, é importante pensar que estes são valores dos pais, não necessariamente compartilhados pelos filhos. Aquilo que a princípio aparece como ajuda pode transformar-se em pressão ou peso para o adolescente, caso este queira atender a demanda dos pais. A ajuda não deve passar pela indicação de uma profissão, mas por facilitar o caminho da descoberta do desejo e das aptidões.

É comum escutar do adolescente que passa pelo processo de escolha profissional o quanto é difícil tomar esta decisão sozinho. Neste sentido, também podemos pensar no peso que é escolher livre das influências, dos preconceitos e das diversas dúvidas que surgem neste momento. Na adolescência, o jovem precisa falar desta decisão porque, de fato, há uma pressão social que o obriga a fazê-lo. Esta tarefa realmente não é fácil! E será mais difícil ainda se, ao longo destes anos de vida, não foi dada a ele a oportunidade de aprender a fazer escolhas. Mais difícil ainda se não foi dada a ele a possibilidade de distinguir sea escolha da profissão é um desejo seu, pronto a ser realizado, ou está sendo “usado” para realizar o desejo de outros — pais, irmão, avós…

Vemos pais que esperam realizar-se em um dos filhos, vislumbrando a possibilidade de resgatar algo que ficou perdido na sua própria história de vida. E, desta forma, esperam que os jovens deem conta das suas frustrações. Porém,nem sempre estão conscientes dos seus atos, por isso é preciso perguntar-se: como e por que escolhi esta profissão? De fato, pude escolher? Estou realizado profissionalmente? Se não tivesse escolhido esta profissão, que outra seguiria? Ao pensar sobre você, provavelmente cuidará para que as suas expectativas não invadam a criança, deixando-a livre para escolher a partir de suas próprias descobertas.No caso do Mundial de Melbourne, fica evidente que o técnico/pai (a ordem foi trocada propositalmente) não suportou a derrota da filha, possivelmente compreendida, aqui, como a sua própria derrota. Ficamos chocados quando assistimos a uma atitude como esta. É angustiante quando a agressividade aparece assim estampada em jornais e televisões de todo o mundo. O fato é que, diariamente, acompanhamos crianças que sofrem agressões veladas, implícitas e maquiadas pelos discursos dos pais quando insistem, mesmo que camufladamente, nas suas preferências quanto à roupa que elas devem vestir, a pessoa que devem namorar e a profissão que devem seguir, entre outras coisas. Os pais também agridem os filhos quando os impedem de sonhar os seus próprios sonhos e seguir os seus próprios desejos.É importante que eles cresçam independentes o suficiente para fazerem as diversas escolhas que a vida exige. E a escolha da profissão é uma delas. Na verdade, é preciso pensar que a melhor forma de ajudar é prepará-los para o mundo, orientá-los, mostrar os caminhos e caminhar junto, isto é, caminhar ao lado, e não sobreposto, confundindo os seus passos com os deles. É poder ouvi-los, encaminhá-los, dando os recursos necessários para que pesquisem e se informem a respeito das possíveis áreas de atuação evidenciadas pelo seu discurso.

Ajudar é, ainda, deixá-los escutar a si mesmos para que, a partir de uma autoavaliação, percebam os gostos e interesses que poderiam ser considerados no momento da escolha. Não se pode esquecer que, ainda como filhos, têm gostos, interesses e atitudes diferentes, em diversos aspectos, dos apresentados pelos pais.

Voltando a Kateryna, a menina do Mundial de Melbourne, até onde perder o campeonato não poderia estar no lugar da denúncia, isto é, tornar público o que no privado (dentro dela mesma) já se apresentava de forma insuportável?

Não é incomum conhecermos profissionais frustrados, que não conseguem lugar no mercado ou são infelizes nas suas posições. Certamente, a história destes profissionais passa pela impossibilidade de uma escolha acertada. Talvez Kateryna tenha sido pela primeira vez campeã ao fazer essa denúncia ao mundo, ao mesmo tempo nos levando a refletir sobre as escolhas que fazemos.

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