Educação

O Castigo e sua Disfunção

sexta-feira, 10 março , 2017

Talvez não se tenha parado para analisar se há mais ganhos ou perdas quando se utiliza o castigo como tentativa de educar crianças. Castigo, corretivo, postura disciplinadora, seja lá qual for o nome dado, é muito mais um recurso para aliviar a raiva sentida pelos pais em relação a um comportamento inadequado da criança do que um recurso saudável que tem como objetivo a mudança na forma de ela agir.


É claro que os pais ficam irritados, tristes, aborrecidos quando percebem que o filho está agindo de forma errada, mas as suas ações com ele não podem ser pautadas nestes sentimentos. Isto é, a repreensão não pode ser uma decorrência de o pai estar afetado emocionalmente. A condução do problema precisa ter como objetivo a compreensão por parte da criança e a mudança de postura face ao acontecido. No entanto, penso que o castigo não é o melhor caminho.
 
Os castigos, sejam eles físicos ou morais, podem criar problemas sérios para a criança. É preciso pensar os danos que a afetam emocionalmente e que irão influenciar na sua formação como indivíduo.
 
Muitos castigos provocam apenas pequenas dores no corpo físico, mas deixam marcas profundas no que diz respeito às emoções da criança.
 
Cada criança responderá diferentemente ao castigo que lhe foi imposto, pois a forma como o compreenderá vai depender de como se constituiu até o momento na relação com os pais. É certo que toda criança que se sente punida tem um sentimento de inadequação que a deixa numa situação desconfortável.
 
Por que as crianças são indisciplinadas?
 
Uma criança tem um comportamento inadequado quando, de fato, desconhece o que é o certo ou quando quer chamar atenção. Crianças pequenas, muitas vezes, também colocam os seus pais em teste: cometer uma peraltice, falar palavrões ou desobedecer a uma ordem dada pode servir de instrumento para “medir” até onde vai o limite destes pais e até que ponto eles são coerentes no seu discurso.
 
Quando uma criança faz algo de errado, um castigo muito comum é ter que ficar pensando no que fez de errado. Qual o valor desta ação? Se a criança fez algo de errado e desejamos que ela não repita, não é exigindo que ela fique pensando nos seus erros que estaremos ajudando! Se levarmos em conta que o diálogo é fundamental nas relações e que através da fala podemos reorganizar nossos pensamentos e atitudes, uma criança que é posta de castigo é impedida de aprender ou mesmo de compreender o que de errado há em suas ações.
 
Os pais deveriam ver este momento em que a criança está agindo em desacordo com o que eles pensam ser o certo como uma grande oportunidade de crescimento da criança, de desenvolvimento tanto como pessoa quanto para a relação familiar. Eles deveriam aproveitar para escutá-la: o que ela pensa da sua atitude, se sabe que errou, como resolveria se pudesse voltar atrás, o que pode ainda fazer para reverter o processo, se consegue compreender por que os pais ficam tão tristes, magoados e preocupados quando ela age daquela maneira…
 
Muitos pais podem estar pensando neste momento: “Ah! Meu filho nunca mais cometeu o mesmo erro depois que o coloquei de castigo!” Muitas vezes por medo do castigo, de ser exposta diante das pessoas ou de deixar de ser amada pelos pais, a criança pode desistir de cometer o mesmo erro. Mas o fato é que ela se sente coagida. Isso não significa que “aprendeu a lição”, como se diz popularmente. Na maioria das vezes, não houve compreensão. Para que algo realmente faça sentido, ela precisa introjetar certos valores e compreendê-los a partir da experiência, e não por imposição.
 
Uma criança que se sente receosa e insegura das suas ações pode apresentar certos comportamentos poucos producentes à sua formação. Entre outras situações, a criança com medo de errar paralisa o seu processo de criação e, com isto, nega-se a aprender e conhecer coisas novas. Pode, ainda, produzir uma compulsão à mentira, negando ou escondendo os fatos nos quais estaria envolvida.
 
Outro aspecto importante é a coerência entre o que se fala e o que se pratica. Não dá para ter um discurso politicamente correto, exigindo da criança que obedeça a uma série de normas e regras ensinadas e estabelecidas pela família, e esquecer-se de se incluir nelas. Por exemplo, de nada vale um pai ensinar à criança que ela não pode descumprir as leis da natureza e dos homens se ela o assiste beber e dirigir em seguida, ultrapassar o limite de velocidade, jogar papel pela janela do carro, falar um palavrão para o motorista do carro ao lado …
 
Lembre-se: a criança aprende muito mais pela observação! Ela aprende com aqueles com quem têm identificação, com os que estão mais próximos, com os pais…
 
Erram as crianças, erram os pais. O fato é que o erro do outro incomoda muito mais do que os próprios erros. Quando se trata do erro dos filhos, incomoda duas vezes mais porque os pais se culpam ou ficam preocupados com a forma como estão sendo avaliados pelos avós, amigos e vizinhos. Por isso, ao serem surpreendidos pelo comportamento inadequado da criança, os pais não devem deixar que a raiva, a irritação, o medo ou o constrangimento que possam estar sentindo diante da sociedade os impeça de tomar uma atitude cautelosa e produtiva.
 
Os pais não precisam dar uma satisfação à sociedade de como agem com a criança. Este momento deve ser íntimo, um espaço preservado, familiar. É claro que se o problema envolve terceiros, antes ou depois, dependendo da situação, as atitudes cabíveis devem ser tomadas: pedido de desculpas, conserto de algo que foi quebrado, limpeza de um lugar que a criança sujou etc.
 
Não se trata de não demonstrar à criança como você está se sentindo diante do acontecido, ao contrário, os sentimentos precisam ser nomeados. Mas, para isso, não precisa gritar, ofender, machucar, ferir.
 
Tampouco se trata de fingir que está tranquilo, que o que aconteceu não o afetou: a criança percebe no seu olhar e na sua reação que algo não está agradando. Os sentimentos estão aí, nos atravessam e são formas de expressão, portanto, não podem ser desmentidos.
 
Também não dá para esperar o tempo da criança e deixá-la errar até que um belo dia aprenda. Não! Definitivamente, não é disto que se trata! Uma criança que não consegue perceber que não pode, por exemplo, chamar a vovó de boba ou xingar qualquer outra pessoa e insiste em fazê-lo precisa perder algo relacionado a este momento, talvez a companhia momentânea da avó ou das demais pessoas envolvidas na situação. E não adianta mandá-la pedir desculpas cada vez que ela tem este comportamento, porque assim ela pensa que esta palavra resolve todos os problemas: a mágoa, a tristeza, a irritação de quem foi ofendido ou está sendo mal recebido.
 
Educar não é tarefa fácil, mas pode ser menos penosa quando o bom senso e o senso crítico são palavras de ordem.

 

 

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